sábado, 22 de março de 2008

O ESQUEMA DE CORRUPÇÃO DO IML DO RIO DE JANEIRO.

Publicado em 15/03/2008 08:59

Gravações revelam compras suspeitas e submissão


Fonte: Agência Senado

Na gravação divulgada por Daniel Ponte, durante uma conversa, em abril deste ano, com o auxiliar de necrópsia Alexandre Várzea, antes de sua morte, o mesmo alertou o amigo sobre um plano para matá-lo. E, ainda comentou sobre o roubo de material após a saída da equipe de Ancillotti. " Pô, material pra caramba aí sumiu. Gente viu uma leva. (...) material, folha chamex, resmas fechadas, embaladas. O cara vai tocar a chefia de polícia por um ano. Mais de R$ 10 mil.", observou Várzea.

Daniel, por sua vez, comenta com Alexandre que começou a perceber o esquema de corrupção dentro do IML e se confessou abismado com toda a situação. "Eu não sabia. Só via os bolos de dinheiro correrem na minha frente (...) falavam que era de clínica popular (de propriedade particular de outros funcionários) e eu fingia que acreditava", disse.

Em outro trecho, Várzea cita o suposto envolvimento do deputado estadual Álvaro Lins com o esquema de corrupção no IML. "Ali eu fiquei p.. porque os caras tinham tudo para fazer uma boa gestão, não sacanear ninguém. Mas é aquele negócio. Tinha o chefe, que era o Ali Babá e os 40 ladrões, o chefe era o Álvaro Lins, e o cara queria porque queria dinheiro. Ele mandava", comenta.

Ao fim, segundo Ponte, Alexandre Várzea o orientou a tomar cuidado, pois poderia ser morto por estar mexendo com assuntos internos e que envolviam muita gente.

Condições de trabalho

Em uma outra gravação feita pelo legista, enquanto conversava ao telefone com o atual vice-diretor do IML, Hildoberto Carneiro, são discutidas as condições precárias de trabalho do instituto, sem local para higienização e longa carga horária de trabalho.

Ponte, na ocasião, diz ao vice-diretor que não está tendo condições de trabalhar, pois muitos corpos estavam tomados por larvas que se proliferavam, e relatou que um funcionário havia trabalhado o dia inteiro com pneumonia, além dele próprio, ter cumprido mais de 14h de plantão. Para piorar, Ponte afirma que no dia seguinte, pela sujeira do local, acabou amanhecendo com uma bolha na mão cheia de pus. "Aquilo ali está uma coisa inacreditável". Aparentemente o vice-diretor concorda e confirma "é não tem como, não está dando. (...) está muito ruim".

Adiante, Daniel sugere até que os corpos sejam levados para outro andar, com refrigeração, nem que fosse por um elevador externo em caráter emergencial. "A geladeira lá do terceiro andar funciona. Então é só subir com o cadáver".

Hildoberto lembra que não existem nem remédios para matar as moscas varejeiras. Daniel então informa que o inseticida era comprado pelo ele mesmo. "Por plantão eu compro quatro a cinco frascos e não dá conta (...) A gente não tem aonde lavar a mão", comenta.

Segundo Ponte, a interdição "política" da clínica médica em caráter emergencial teria sido uma "saída legal" para que fosse angariada verba para construção de um futuro necrotério, em melhores condições, mas com obras sem licitação.

Em outro trecho, Ponte comenta o "absurdo" da compra de oito mesas de necropsia, quando só existem dois peritos. "As outras seis (mesas) são para quê? Para a gente dormir? ", questiona Daniel. Hildoberto afirma ter sugerido a compra de no máximo três. "Pra que vão precisar de oito?", confirma o exagero.

Ambos, porém, deixam claro durante as gravações que o atual diretor do instituto, Helio Feldman não teria nenhum envolvimento financeiro com as irregularidades.

Valores e ameaça.

Em uma última gravação divulgada por Daniel Ponte, feita durante uma conversa com um perito do IML, cuja identidade foi preservada, são esclarecidos os valores cobrados das famílias para liberação dos corpos.

Segundo o perito a família teria que pagar cerca de R$ 200 mais as despesas com a funerária. "Nós vivemos em uma época que ninguém é criança. Veja bem, era impossível que a Inteligência da Polícia Civil não soubesse disso. (...) a inteligência pode ser corrupta, mas burra não é", afirma. Daniel desabafa e diz que ia acabar falando tudo que supostamente sabe. "Eu vou acabar jogando m.. no ventilador. Já ameaçaram que vão me matar mesmo. (...) O Aristóteles vai me matar. "

Em entrevista à TRIBUNA DA IMPRENSA, Daniel afirmou que no início do ano foi ameaçado pelo inspetor Aristóteles Marques em represália pelas suas denúncias. "Vou morrer. Não tenho a mínima esperança de consertar a Polícia Civil.(...) A gente vê termas funcionando na rua, boca de ouro, pirataria. Por que só a polícia não vê ?", questiona. Mas finaliza afirmando que "dentro da Polícia Civil existem pessoas íntegras, e nem todos são bandidos".

Segundo informações da Assessoria de Comunicação Social (Ascom) da Polícia Civil, qualquer pronunciamento só será feito após determinação e conclusão da Corregedoria responsável pelo inquérito. Todas as denúncias feitas por Daniel Ponte e as gravações feitas foram anexadas.

Após tentativa de contato com o deputado Álvaro Lins, até o fim da tarde de ontem, nenhum representante de sua assessoria de imprensa foi encontrado. Já o ex-diretor do IML, Roger Ancellotti já havia divulgado que, por orientação de seus advogados prefere não comentar as acusações.

O médico afirmou, entretanto, que Ponte responde a cinco sindicâncias na Corregedoria da Polícia Civil e também será alvo de uma ação cível na Justiça comum. Roger, que também é professor universitário disse que a situação está causando um grande mal-estar e que desconhece as irregularidades citadas por Ponte.

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